Cry Baby é um álbum com uma identidade artística muito bem definida, mas que nem sempre consegue transformar essa identidade em músicas igualmente interessantes.
Melanie Martinez constrói um universo infantil, colorido e propositalmente perturbador, utilizando brinquedos, contos de fadas e referências à infância para falar sobre relacionamentos, insegurança, sexualidade, padrões de beleza e violência. O conceito é forte e extremamente reconhecível, mas, em diversos momentos, a estética promete mais profundidade do que a composição realmente entrega.
A produção é, sem dúvida, o maior destaque do álbum. Os instrumentais infantis, os sons de brinquedos e as melodias delicadas contrastam com temas cada vez mais “adultos”, criando uma atmosfera muito própria, mas que cobra seu preço ao soar extremamente repetitiva ao longo do disco, além de um pouco datada.
Soap, Carousel e Sippy Cup são exemplos particularmente bons de como essa estética pode funcionar a favor das músicas, enriquecendo-as em vez de simplesmente servir como base para toda a construção delas. Carousel, especialmente, me parece muito mais interessante do que Dollhouse: existe uma sensação de repetição e aprisionamento que está incorporada à própria música, tornando o conceito mais orgânico.
E esse é o meu maior problema com Cry Baby: Melanie encontra uma metáfora interessante e parece ter medo de abandoná-la. Então ela repete, repete e repete até uma ideia que poderia ser ótima começar a parecer um conceito de trabalho escolar que precisava atingir o número mínimo de linhas. Essa artificialidade surge porque algumas letras parecem mais preocupadas em reforçar a persona de Cry Baby do que em desenvolver aquilo que estão dizendo.
Dollhouse, por exemplo, é provavelmente uma das músicas mais emblemáticas, mas acho que sua reputação é maior do que sua qualidade musical. A ideia de uma família perfeita por fora e completamente disfuncional por dentro é boa, mas a execução é relativamente simples.
Essa mesma armadilha fica evidente no bloco central do álbum, com Tag, You’re It e Milk and Cookies. A tentativa de usar dinâmicas infantis (um sequestro com sorvete e uma vingança com biscoitos) para abordar temas pesados como estupro e violência acaba soando forçada. Em vez de criar um mistério perturbador, a repetição literal das metáforas esvazia o impacto dramático da história.
Mad Hatter sofre de um problema semelhante: a tentativa de transmitir excentricidade acaba sendo tão explícita que a música perde o impacto. Ela quer parecer caótica e estranha o tempo inteiro. É uma faixa tão desesperada para provar que é excêntrica que acaba sendo menos interessante justamente por isso. É quase o equivalente musical de alguém entrar numa sala gritando “OLHEM COMO EU SOU LOUCO”.
Por outro lado, quando Melanie abandona um pouco essa necessidade de provar o conceito, o álbum fica muito mais interessante. Soap, como dito antes, é provavelmente o melhor exemplo disso. A metáfora é simples, mas funciona porque não parece estar ali apenas para reforçar a história de Cry Baby. A produção, a melodia e a letra conseguem criar uma música que funciona mesmo se você arrancar todo o conceito infantil ao redor dela. Training Wheels também possui uma vulnerabilidade interessante, embora seja prejudicada pela repetição excessiva de linhas. Pity Party, apesar de não ser particularmente profunda, é extremamente eficiente como música pop e utiliza sua referência a It’s My Party de maneira inteligente.
Ainda assim, para um álbum de estreia, Melanie já sabia exatamente qual universo queria construir e como queria ser percebida. Existe uma coesão visual, temática e sonora muito forte, e isso faz com que o disco seja imediatamente reconhecível, mas sua composição e sua produção nem sempre estão à altura de sua estética.
Melanie Martinez constrói um universo infantil, colorido e propositalmente perturbador, utilizando brinquedos, contos de fadas e referências à infância para falar sobre relacionamentos, insegurança, sexualidade, padrões de beleza e violência. O conceito é forte e extremamente reconhecível, mas, em diversos momentos, a estética promete mais profundidade do que a composição realmente entrega.
A produção é, sem dúvida, o maior destaque do álbum. Os instrumentais infantis, os sons de brinquedos e as melodias delicadas contrastam com temas cada vez mais “adultos”, criando uma atmosfera muito própria, mas que cobra seu preço ao soar extremamente repetitiva ao longo do disco, além de um pouco datada.
Soap, Carousel e Sippy Cup são exemplos particularmente bons de como essa estética pode funcionar a favor das músicas, enriquecendo-as em vez de simplesmente servir como base para toda a construção delas. Carousel, especialmente, me parece muito mais interessante do que Dollhouse: existe uma sensação de repetição e aprisionamento que está incorporada à própria música, tornando o conceito mais orgânico.
E esse é o meu maior problema com Cry Baby: Melanie encontra uma metáfora interessante e parece ter medo de abandoná-la. Então ela repete, repete e repete até uma ideia que poderia ser ótima começar a parecer um conceito de trabalho escolar que precisava atingir o número mínimo de linhas. Essa artificialidade surge porque algumas letras parecem mais preocupadas em reforçar a persona de Cry Baby do que em desenvolver aquilo que estão dizendo.
Dollhouse, por exemplo, é provavelmente uma das músicas mais emblemáticas, mas acho que sua reputação é maior do que sua qualidade musical. A ideia de uma família perfeita por fora e completamente disfuncional por dentro é boa, mas a execução é relativamente simples.
Essa mesma armadilha fica evidente no bloco central do álbum, com Tag, You’re It e Milk and Cookies. A tentativa de usar dinâmicas infantis (um sequestro com sorvete e uma vingança com biscoitos) para abordar temas pesados como estupro e violência acaba soando forçada. Em vez de criar um mistério perturbador, a repetição literal das metáforas esvazia o impacto dramático da história.
Mad Hatter sofre de um problema semelhante: a tentativa de transmitir excentricidade acaba sendo tão explícita que a música perde o impacto. Ela quer parecer caótica e estranha o tempo inteiro. É uma faixa tão desesperada para provar que é excêntrica que acaba sendo menos interessante justamente por isso. É quase o equivalente musical de alguém entrar numa sala gritando “OLHEM COMO EU SOU LOUCO”.
Por outro lado, quando Melanie abandona um pouco essa necessidade de provar o conceito, o álbum fica muito mais interessante. Soap, como dito antes, é provavelmente o melhor exemplo disso. A metáfora é simples, mas funciona porque não parece estar ali apenas para reforçar a história de Cry Baby. A produção, a melodia e a letra conseguem criar uma música que funciona mesmo se você arrancar todo o conceito infantil ao redor dela. Training Wheels também possui uma vulnerabilidade interessante, embora seja prejudicada pela repetição excessiva de linhas. Pity Party, apesar de não ser particularmente profunda, é extremamente eficiente como música pop e utiliza sua referência a It’s My Party de maneira inteligente.
Ainda assim, para um álbum de estreia, Melanie já sabia exatamente qual universo queria construir e como queria ser percebida. Existe uma coesão visual, temática e sonora muito forte, e isso faz com que o disco seja imediatamente reconhecível, mas sua composição e sua produção nem sempre estão à altura de sua estética.

